ESTUDOS PARA
GRUPOS FAMILIARES
IMPRIMIR


Voltar
  BOLETIM 499
O VALOR INESTIMÁVEL DA PERSEGUIÇÃO

O cristão verdadeiro deve ter uma reação positiva quando se defrontar com o sofrimento e enfrentar tempos sombrios de perseguição hostil. Essa não deve ser uma atitude estóica (baseada na força da religiosidade) ou masoquista (tendo um prazer mórbido no sofrimento), mas uma pré-disposição alegre de aceitar a ação soberana do Deus soberano que governa todas as coisas e de confiar que Ele preparou para nós um desfecho glorioso, mas com muitas tribulações no percurso dessa caminhada, até o grand finale quando seremos pervadidos pela presença do Senhor para sempre. O ensino geral do Novo Testamento, no entanto, nos incentiva a crer que a tribulação deve ser encarada com alegria e perseverança (Tg1:2-4,12) e aciona uma seqüência de virtudes que resultam na bendita esperança de que um dia seremos revestidos da Glória de Deus (Rm5:3-5).
O livro de Atos, já nos primeiros capítulos nos ensina que Deus não nos isenta nem nos isentará das tribulações, mas que as usará como poderosas catapultas que lançarão a igreja para transpor enormes barreiras de dificuldades e a galgar amplos espaços em sua conquista do mundo perdido. Historicamente, após um período de perseguição e sofrimento, a igreja sempre é purificada, se tornando mais intrépida e mais capacitada pelo Espírito Santo para proclamar com ousadia a Palavra de Deus.
O contexto do trecho bíblico que ora estudamos (At4:1-22), nos direciona para a perseguição por parte do Sinédrio, o tribunal dos judeus, que se reúne para dar o veredicto final ainda com respeito ao paralítico de nascença que fora curado e a subseqüente prisão de Pedro e João. Interessante aqui mencionar que essa e outras perseguições foram encetadas pelos saduceus, partido político poderoso, que compunha o Sinédrio, um grupo hierárquico que governava a nação juntamente com os fariseus e sacerdotes do Templo.
Os saduceus não só era uma classe de aristocratas endinheirados, como também era uma facção religiosa influente, cuja “doutrina” consistia em não crer em milagres, em negar a existência do mundo espiritual e rejeitar veementemente a doutrina da ressurreição dos mortos no Último Dia. Daí, uma implicância tão acirrada contra a mensagem de poder e esperança pregada por Pedro. Vejamos agora as grandes oportunidades que são geradas na vida da igreja, por causa da perseguição.
Em primeiro lugar, a perseguição gera a oportunidade das pessoas tomarem posicionamento comprometido e engajado diante da Palavra de Deus pregada (At4:4). Nesse aspecto, a perseguição serve como divisora de águas, afunilando as escolhas em direção a uma decisão definida. O povo viu o coxo de nascença ser curado e o viu andando e saltando nas imediações do Templo. Era um fato incontestável. Agora, mesmo em face à oposição hostil dos líderes judeus, que aborrecidos, recolheram a Pedro e João no cárcere (At4:1-3), não ficaram intimidados, mas tomaram uma posição definida ao lado de Cristo, depois de ouvirem a pregação, aceitaram a Palavra de todo o coração, tendo havido um acréscimo de cinco mil homens, fora as mulheres e as crianças (At4:4).
Em segundo lugar, a perseguição gera a oportunidade de se pregar a Palavra de Deus com toda intrepidez e clareza (At4:8-12). O texto nos diz que Pedro foi colocado diante das autoridades religiosas e este, cheio do Espírito Santo e tomado de uma intrepidez extraordinária faz uma das sínteses mais lúcidas do Evangelho mostrando que Jesus está vivo e que a invocação de Seu Nome é a causa principal do coxo de nascença estar completamente curado (At4:10). Depois, Pedro revela Jesus como sendo a Pedra Angular (Sl118:22) que foi rejeitada pelos homens, e agora, especificamente pelos líderes judeus que ora o estavam inquirindo. Curioso observar que essa comparação de Jesus como Pedra Angular, faria naturalmente os judeus erguerem suas cabeças e direcionarem seus olhares para a gigantesca viga de sustentação que apoiava toda a grandiosa estrutura do Templo. Desprezar a Jesus significava permanecerem debaixo de uma religião/construção insólita, destituída da pedra de esquina, a pedra angular, a pedra principal de sustentação da edificação (1Pe2:4-8). Pedro termina sua palavra apontando Jesus como o único Nome que pode salvar. Não há nenhum outro nome na face da terra que possa salvar, a não ser o nome de Jesus.
Em terceiro lugar, a perseguição gera um tipo de testemunho tão comprometido que manifesta desobediência aberta diante da ordem de não pregarem o Evangelho (At4:18). Essa é a única forma do cristão e a Igreja de um modo geral, contestar a autoridade constituída, sem, no entanto, negar o princípio bíblico de que o cristão deve prestar obediência as autoridades instituídas (Rm13:1-7; Tt3:1; 1Pe2:14).
Mais adiante o apóstolo Pedro, diante da ordem das autoridades de não pregar o Evangelho, vai declarar de forma contundente: “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (At5:29).
O filósofo cristão contemporâneo Francis Schaeffer discorrendo sobre a palavra de Jesus, quando O perguntaram se era lícito pagar tributo a César, responde magistralmente: “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Lc20:25), diz que o problema é quando César tenta usurpar o que é de Deus, invadindo uma jurisdição que não lhe diz respeito.
Se isso acontecer, vamos ter de tomar a iniciativa de desobediência aberta contra um líder despótico e ateu que nos ordene qualquer mandamento que venha a ferir os princípios imutáveis da Palavra de Deus e o nosso compromisso diante de Deus. Então, nessa circunstãncia, poderemos declarar sem hesitação: “Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus; pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (At4:19,20). Interessante...
Os líderes que negaram a Jesus e proibiram a pregação do Evangelho tiveram de O reconhecer, vivo, na vida dos mesmos apóstolos que perseguiram (At4:13). Jesus tem sido visto em nossas vidas, mesmo pelos que não conhecem a Deus?

Pr. Manoel do Carmo Filho
Publicado no Boletim 499 de 13/08/2006