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  BOLETIM 502
UMA IGREJA CHEIA DO ESPÍRITO SANTO

“Utopia” é um país imaginário criado por Thomas Morus (1480-1535), escritor inglês, onde um governo, organizado da melhor maneira, proporciona ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz. “A Igreja de Utópolis” é um editorial escrito por Manfred Grellert na revista Ultimato, mostrando “A Igreja dos sonhos” cujo ideal de concretização estaria muito longe de ser alcançado em nosso país, uma superigreja, que ama apaixonada e incondicionalmente seus membros e as almas perdidas, que demonstra real cordialidade e interesse cativante a todos sem preconceitos, distinções espirituais e sociais, com um culto espiritual com louvor pleno de compromisso que gera momentos de confissão e quebrantamento, um púlpito flamejante com mensagem simples, clara e poderosa que guia a todos à plenitude do Espírito Santo, na dinâmica total de suas vidas, uma Escola Dominical com ensino fundamentado na Palavra de Deus que gera verdadeira transformação de vida, uma Igreja sem necessitados, pois sua diaconia é efetiva na busca em acudir os membros desempregados com o compromisso dos irmãos que tem emprego disporem o que tem, trazendo alimentos e outros gêneros e distribuindo aos que não tem.
Grellert termina seu texto perguntando: Essa igreja existe? Aí responderemos: É claro que existe e temos seu modelo para nos espelhar. É a Igreja do Novo Testamento, a Igreja primitiva que poderíamos chamar imaginativamente de “Igreja de Fatópolis”, arraigada na realidade tangível da história que Lucas detalha com toda sua riqueza literária suas marcas inconfundíveis e delineia seu perfil de forma intocável. Nos ateremos, então, nos atributos distintivos dessa Igreja. Inicialmente, temos como resultado da oração que elevaram a Deus no contexto anterior, o chão tremeu, todos ficaram cheios do Espírito Santo, e passaram a pregar a Palavra com grande intrepidez (At4:31).
Tudo isso gerou uma marca irremovível: ESSA ERA UMA IGREJA TOTALMENTE UNIDA (4:32; 2:44). Essa unidade indestrutível é caracterizada pela unanimidade que carimba seu viver diário. O temo unânimes (grego Homothumadon) significa ter uma só mente, de comum acordo. Essa palavra aparece no livro de Atos em At1:14; 2:1 (reunidos no mesmo lugar); 2:46; 4:24; 5:12 (comum acordo); 7:57; 8:6. É um composto de duas palavras que significam "impedir" e "em uníssono".
A imagem é quase musical; um conjunto de notas é tocado e, mesmo que diferentes, as notas harmonizam em grau e tom. Como os instrumentos de uma grande orquestra sob a direção de um maestro, assim o Santo Espírito harmoniza em total unidade as vidas dos membros da igreja de Cristo.
Eles também viviam em estreita comunhão (2:42), estando sempre juntos (2:44) e tinham um só coração e alma (4:32). Outra marca inconfundível: ESSA IGREJA ERA UMA IGREJA DESPRENDIDA DOS VALORES MATERIAIS (At2:44,45; 4:32,34,35). John Stott comenta que essa era a solidariedade de amor fundamental que os crentes gozavam, e a comunhão econômica era apenas uma expressão da união de seus corações e almas. Infelizmente, a realidade é outra em nossos dias.
Muitos de nós realmente erguemos nossos pequenos impérios, construímos casas com altos muros de proteção e nos escondemos em nosso mundo particular e mesquinho. Como disse Calvino de forma acertada: “Naqueles dias os crentes davam abundantemente daquilo que era deles; hoje, não nos contentamos em guardar egoisticamente aquilo que é nosso; eles vendiam seus próprios bens naqueles dias; hoje é o desejo de possuir que reina supremo.
Naquele tempo, o amor fez com que a propriedade de cada homem se tornasse propriedade comum para todos as necessitados; hoje a desumanidade de muitos é tão grande que de má vontade concedem que o pobre more nesta terra e desfrute a água, o ar e o céu juntamente com eles”.
Nosso texto narra a atitude de alguns depositarem o valor de suas propriedades aos pés dos apóstolos distribuindo o valor a qualquer um, á medida que alguém tinha necessidade, por isso, nenhum necessitado havia entre eles (At4:34,35).
Essa iniciativa da igreja de Jerusalém não pode ser entendida como uma medida compulsória que vai gerar “o verdadeiro comunismo cristão” ou um modelo a ser copiado de forma literal. O fato da venda e da partilha serem voluntárias, nos leva a pensar a imitarmos o principio geral da ação, que é de cuidarmos dos nossos necessitados e a termos generosidade sacrificial criada pelo Espírito Santo no seio da igreja. Além disso, ESSA ERA UMA IGREJA COMPROMETIDA COM A MENSAGEM APOSTÓLICA (At4:33).
A Igreja agora anunciava a Palavra com intrepidez (4;31) e dava testemunho da ressurreição de Jesus com grande poder, a despeito das proibições das autoridades judaicas. Isso fazia a diferença no transmitir a mensagem do Evangelho, que não consistia na transmissão de meros conceitos intelectuais, mas de comprovar que Jesus havia ressuscitado e estava vivo agindo através de suas vidas. O vocábulo grego traduzido por davam, na realidade poderia ser traduzido por devolviam, deixando claro que o testemunho em favor da ressurreição de Jesus era algo a que os apóstolos estavam obrigados por imposição de um dever, ao mesmo tempo em que eram pervadidos por um maravilhoso espírito de generosidade, a ponto de suas vidas extravasaram a abundante graça do Senhor (At4:33), um alto poder de atratividade e simpatia (At2:47) que gerava um impacto inesquecível na vida daqueles que se deparavam com eles.
Vivemos essa realidade em nossa vida?

Pr. Manoel do Carmo Filho
Publicado no Boletim 502 de 03/09/2006