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  BOLETIM 511
QUANDO JESUS SENTE NÁUSEAS POR NÓS

Curioso perceber O Cristo Glorificado poder sentir tontura, enjôo ou ânsia de vômito. O texto de Apocalipse capítulo três, referente à carta direcionada ao pastor da Igreja de Laodicéia, quer mostrar na verdade, o sentimento agudo no coração de Jesus ao ver atitudes pecaminosas inaceitáveis no seio de Sua Igreja que provocam ânsias de repugnância, aversão e repulsa da parte daquele que é o Amém (Is65:16), a testemunha fiel e verdadeira e o princípio da criação de Deus (Ap3:14). É lamentável quando achamos que nossos pensamentos e atitudes ocultas passam desapercebidos aos olhos de Deus, achando que Ele faz “vista grossa” para a sujeira que jogamos para baixo do tapete. Sonegamos impostos, mentimos, dissimulamos, nossos relacionamentos são cheios de impureza, matamos o irmão no coração, nossa língua desanda a falar mal de todo mundo, temos pensamentos carregados de desvios e taras e nossas olhadelas desnudam à distância e, no entanto, exibimos uma máscara religiosa “perfeita”, mas que aos olhos de Deus não passa de uma carranca tosca ou de uma maquiagem borrada e escorregadiça. Mas a realidade é outra.
Diante do alcance inescapável dos olhos daquele que tem olhos como chamas de fogo (Ap1:14) nada pode deixar de ser notado pela varredura do scanner do olhar de Deus, que vê o pecado e tanta hipocrisia alastrando nos bastidores de Sua Igreja. E para essa igreja Jesus diz: “Conheço as tuas obras” (Ap3:15) endossando as palavras do profeta:“Ai dos que escondem profundamente o seu propósito do Senhor, e as suas próprias obras fazem às escuras e dizem: Quem nos vê? Quem nos conhece? Que perversidade a vossa! Como se o oleiro fosse igual ao barro, e a obra dissesse ao seu artífice: Ele não me fez; e a coisa feita dissesse do seu oleiro: Ele nada sabe” (Is29:15,16). É exatamente esse perfeito conhecimento de Deus a respeito de nós mesmos e de Sua Igreja, sondando nossas obras, nossos pensamentos doentios, nossos desejos megalomaníacos, pecados encobertos e uma religião morna, é que levam o Senhor da Criação a sentir reviravoltas em Seu estômago divino. Por nossa causa. Por nossa tentativa de enganar e pelo simulacro de apresentarmos uma religião de protagonistas hipócritas. Mas, de acordo como o texto de Apocalipse, quais as circunstancias que fazem Jesus regurgitar diante de nosso culto individual e de nossa liturgia como Igreja? Em primeiro lugar, quando a Igreja oferece um culto sem entusiasmo e sem dedicação radical (Ap3:15,16). Os crentes da Igreja de Laodicéia eram crentes mornos. Nem frios nem quentes, nem tanto de Cristo e nem tanto do mundo. Virtudes como zelo, calor, fogo e paixão não se achavam facilmente nessa Igreja. Ao contrário, o que Jesus viu foi mornidão espiritual, ausência de vigor, conivência com o pecado, auto-suficiência, indiferença e uma fé anêmica. Nesse texto, Jesus nos adverte sobre o grande perigo de termos uma vida dúbia, e em outra ocasião exorta sobre a frouxidão moral e o perigo de tentarmos agradar a dois senhores ao mesmo tempo (Mt6:24). Em segundo lugar, Jesus sente náuseas quando a Igreja cultiva uma falsa identidade baseada no orgulho pretensioso: “Sou rico e abastado, não preciso de coisa alguma” (Ap3:17). Essa Igreja foi envenenada pelo pecado do orgulho espiritual e por causa disso, acabou por colocar Jesus do lado de fora (Ap3:20). Todo dinamismo, poder temporal, empenho humano e toda produção super bem feita daquela Igreja eram uma grande ofensa diante de Deus. Além disso, essa Igreja declarava sua total independência espiritual, apesar de se considerar uma igreja cristã (v17). Aqui, é importante entender o contexto social e econômico da cidade de Laodicéia, considerada a principal cidade da Frígia, um lugar onde corria muito dinheiro, conhecida por sua indústria bancária e por uma escola avançada de medicina que oferecia aos pacientes que vinham de várias partes do mundo um pó que servia de ungüento curador para os olhos. Quando aquela região foi sacudida por um terremoto em 61d.C. a cidade de Laodicéia recusou ajuda financeira de Roma e decidiu reconstruir a cidade com fundos de sua própria tesouraria. Sua principal fonte de economia vinha principalmente de uma fábrica que confeccionava roupas feitas de uma lã negra e brilhosa. Essa é a triste história de uma Igreja que à semelhança da cidade onde estava inserida, cursou um caminho autônomo e criou uma identidade independente do seu fundador, cuja maior característica era ser manso e humilde de coração (Mt11:28-30), uma Igreja que se acomodou ao padrão mundano da cidade, e não aproveitou a cultura como uma oportunidade de ouro para infiltrar os valores do Reino e operar mudanças profundas através da mensagem transformadora do Evangelho de Cristo. No entanto, A repreensão de Jesus aos mornos laodicenses manifesta, por outro lado, uma profunda compaixão e interesse real por seu povo, quando diz; “Eu repreendo e disciplino a quantos amo” (Ap3:19) porque “Leais são as feridas feitas pelo que ama” (Pv27:6) e quem nos ama incondicionalmente é Jesus. Ele convida a Igreja que O empurrou para fora a se arrepender sinceramente (Ap3:19). E mais: Ele tem tudo o que realmente precisamos como Igreja para viver uma vida de plenitude espiritual e grato contentamento: verdadeira riqueza, vestes finas que aquecem (Is61:3,10), e ungüento terapêutico para a iluminação dos olhos do coração (Ef1:18; Ap3:18). Finalmente, ouçamos o clamor desse Noivo Amoroso que anseia por uma comunhão íntima com Sua Igreja, muito mais do que trabalho ativista, obras grandiosas e super produções: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo.” (Ap3:20).

Pr. Manoel do Carmo Filho
Publicado no Boletim 511 de 05/Nov/2006