O Natal tem se tornado a cada ano em uma festa de cunho puramente comercial e consumista. As ruas da cidade ficam intransitáveis e as lojas abarrotadas de gente que gastam o que tem e o que não tem. As propagandas persuadem o brasileiro comum a comprar presentes e comidas caríssimas, que o fará mais endividado e mais rechonchudo e espiritualmente mais vazio. Precisamos reajustar o foco de uma visão distorcida e caricata do Natal para compreendermos o sentido original do Natal.
1. Natal é a presença do Deus encarnado, presente no mundo se identificando totalmente com os homens e com sua humanidade. Isaias, o profeta messiânico, nos ajudará a ajustar nosso foco para vislumbrarmos um Deus condescendente que veio para habitar no meio dos homens. Uma virgem ficará grávida e dará a luz um filho que será chamado Emanuel (Is7:14), nome que capta a maravilha da encarnação do verbo de Deus, tendo o Rei da Glória se tornado homem e permitido a si mesmo confinar-se em uma corpo humano frágil e mortal. Assim, Natal é Deus intervindo na história humana, O outro inatingível se tornando Emanuel, Deus conosco, imanente, presente, gente simples, ser humano, com corpo concreto de carne e osso, com estatura, peso e músculos. Jesus é esse representante da raça humana por excelência, o segundo Adão que enfrentará um campo de provas que culminará na subida íngreme de um tosco monte para ser dependurado numa rude cruz.
2. Na ótica de Isaias Natal também é a invasão da luz do Messias derramando compreensão espiritual e profusão de alegria em seu coração (Is8:22; 9:1,2). O contexto é de escuridão e opressão espirituais. Dor, sujeição, jugo pesado, escuridão, pobreza, escassez e campos improdutivos. Contra o pano de fundo de um reino de Judá afundado no pecado e apesar das duras advertências de julgamento que Isaias fora chamado a anunciar, a promessa da vinda do Emanuel brilhou e “o povo que andava em trevas viu grande luz e aos que viviam na região da sombra da morte resplandeceu-lhes a luz”(Is9:2). Você pode acender todas as luzes coloridas de sua decoração natalina que dispuser, mas somente a luz da Brilhante Estrela da Manhã (Ap22:16) pode iluminar sua vida e trazer real compreensão do propósito de Deus para sua vida. Sua mente pode estar obscurecida pelo pecado, mas você pode, nesse Natal ter os olhos espirituais de seu coração iluminados pela poderosa visitação do Sol Nascente das Alturas (Ef1:18; Lc1:78). As escamas cairão, o véu espesso da ignorância será removido e agora, “todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”(2Co3;18). Depois de remover o véu da escuridão, Deus vai derramar profusa alegria sobre os que viviam presos e foram libertos, sobre os que eram sobrecarregados pelo jugo da escravidão e receberam alívio para as costas cortadas pelo chicote do capataz e os ombros esfolados pelas batidas da vara do opressor (Is9:4). Mas esse tempo acabou! Agora é tempo de liberdade e vida sem limite. É tempo de se alegrar como os que colhem na hora da ceifa e quando os guerreiros exultam quando repartem os despojos depois da vitória (Is9:3). Finalmente, para Isaias, Natal é momento de por fim a guerra e de sair das trincheiras dos conflitos pessoais e interpessoais para se submeter a um governo que atinge todos os espaços de nossa vida (Is9:5,6). A guerra acabou, o inimigo foi vencido de uma vez por todas, o jugo foi quebrado e todo apetrecho de guerra só serve como combustível para o fogo (Is9:5). O tempo de paz e reconciliação chegou. A restauração da comunhão entre O Deus santo e o homem caído, é agora restabelecida pelo sangue derramado através de um único e suficiente sacrifício na cruz do Calvário perpetrado pelo Príncipe da Paz (Is9:6; Cl1:20), que veio a constituir-se a Nossa Paz (Mq5:5; Ef7:15), agora, somos soldados que tem como equipamento de guerra o Evangelho da Paz (Ef6:15). Depois de adquirirmos a paz com Deus somos chamados a ser semeadores da paz (Mt5:9), promovedores da paz diante dos homens (Rm12:18; 1Co7:15; 14:33; 2Co13:11; 1Ts5:13; Hb12:14; Tg3:18). Essa paz se instala no coração daqueles que se submetem àquele que tem “o governo sobre seus ombros” (Is9:6). No mundo antigo isso significa as divisas que eram colocadas no ombro do oficial condecorado, as patentes da hierarquia militar, a insígnia de seu ofício, como sinal de autoridade e governo (Is22:22). Jesus recebeu as patentes mais elevadas que alguém já carregou, não sem antes carregar sobre ombros feridos sua própria cruz, para ser reconhecido no céu como O Rei da Glória e O Senhor dos Exércitos, cujo governo está estabelecido na paz e na justiça (Sl45:4,6,7). Nosso Natal deve se tornar realidade inquestionável quando depusermos nossas armas de guerra diante do Príncipe da Paz e à semelhança dos vinte e quatro anciãos de Apocalipse, quando nos prostrarmos reverentemente aos pés Daquele que está sentado no trono e depositarmos nossas coroas (símbolo de autoridade) diante do trono daquele que tem toda autoridade no céu e na terra (Ap4:10; Mt28:19), como representação de nossa inteira e completa submissão à vontade soberana do Rei dos reis. Aí poderemos dizer como o apóstolo Paulo: “Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl2:19,20). Feliz Natal para todos!
Pr. Manoel do Carmo Filho
Publicado no Boletim 518 de 24/Dez/2006