BOLETIM 563

O SANTO E O SAGRADO

Hoje, nos reuniremos, mais uma vez, para relembrarmos, por meio da Ceia do Senhor, a maior de todas as provas do amor e da graça de Deus, o Sacrifício de Cristo. Foi essa obra de Jesus que nos libertou da escravidão do pecado e da condenação da morte eterna. Por isso, devemos nos apresentar ao Senhor com alegria e sinceridade de coração. Todavia, corremos o risco de repetir o que já aconteceu muitas vezes na história, quando a Ceia do Senhor foi transformada em mera representação mecânica, fria, sem vida, enfadonha e sem qualquer significado real. Os líderes não passavam de atores e o povo de platéia. Certamente, ao ler o título deste editorial você percebeu uma 'redundância' (termos que dizem a mesma coisa), pois santo e sagrado têm o mesmo significado. Contudo, a utilização destes termos e para fazer uma diferença entre o crente, que é chamado de santo e tudo aquilo que ele faz pra Deus, como culto, que deve ser sagrado. Mas, é possível que, por causa da desobediência, o santo esteja profanando o sagrado. Para nossa melhor compreensão se faz necessário ler o que está escrito em 1Corintios 11:17-34.
O apóstolo Paulo escreveu essa carta aos cristãos da cidade de Corinto, aos quais, no capitulo 1 verso 2 ele chama de “igreja de Deus”, “santificados em Cristo” e “chamados para ser santos”. No conteúdo dessa carta Paulo usa de sua autoridade, em Cristo, para exortar, repreender, disciplinar e corrigir alguns desvios na vida cristã dos coríntios. Na verdade, Paulo estava exercendo o seu ministério com sabedoria e responsabilidade, pois ele sabia que o povo de Deus não podia viver entregue a todo tipo de prática reprovável sem disciplina. É bom lembrarmos que disciplina, na Bíblia, é um ato por meio do qual Deus corrige e restaura a vida dos seus filhos, a fim de que eles não passem à prática de coisas piores e recebam o justo juízo de Deus. No texto referido, Paulo tomou conhecimento de alguns aspectos da vida dos cristãos de Corinto e faz as seguintes considerações:
1. Os santos estavam vivendo em desarmonia com a santidade. Em suas reuniões em vez de melhorar e progredir eles estavam piorando (17); havia divisões (18); a Ceia estava se tornando ocasião para banquetes e embriaguez (20,21); menosprezavam a igreja de Deus e envergonhavam os pobres (22). Paulo diz que essas coisas que estavam acontecendo no meio da igreja só mereciam a dura reprovação, e não o louvor.
2. Os santos estavam esquecendo de quem os santificou. Do verso 23 a 26, Paulo expõe o verdadeiro significado da Ceia do Senhor, motivo pelo qual a igreja se reunia. Eles foram santificados em Cristo, isto é, através do seu sacrifício, e nada podia expressar com tanta clareza o que Cristo fizera, do que os elementos da Ceia. Pão e vinho simbolizavam, com perfeição, o sofrimento e a morte de Jesus, o sacrifício perfeito e eficaz para sempre. Paulo termina sua exposição a respeito da Ceia dizendo o seguinte: “Porque, todas as vezes que comerdes este pão ou beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha”. Assim, celebrar a Ceia do Senhor além de nos lembrar o que Jesus fez por nós, também, anuncia a sua morte.
3. Os santos estavam precisando de disciplina. Nos versos 27 a 34, Paulo apresenta os requisitos da disciplina, aplicada aos cristãos de Corinto, a fim de que suas vidas fossem corrigidas e eles não precisassem ser julgados por Deus, a exemplo de muitos que estavam fracos e doentes e, igualmente, muitos que já haviam morrido. Paulo diz que, por causa do pecado que se instalara na igreja, Deus exerceu juízo por meio de fraqueza, doença e morte física (11:30). Assim, o apóstolo chama os crentes para o seguinte:
a) Voltar a ter vida digna. Participar da Ceia do Senhor devia ser visto como um grande privilégio e um acontecimento dos mais importantes, mas os cristãos estavam fazendo de qualquer maneira, indignamente, com glutonaria, embriaguez, egoísmo, degradação de outros, contendas e adoração aos heróis líderes das facções. Os que não abandonassem essa prática seriam passíveis do julgamento de Deus (12:27);
b) Voltar à prática do auto-exame. É interessante que no verso 28 Paulo não diz: Examine-se e não coma do pão, e não beba do cálice, mas “Examine-se, pois, o homem a si mesmo e, assim, coma do pão e beba do cálice”. A palavra examinar chama atenção para discernir por meio de uma análise ou investigação. Analisar a própria consciência, com temor a Deus, produz arrependimento e mudança e não autopunição.
c) Voltar a exercer julgamento sobre si mesmo. Muito embora a palavra julgar seja a mesma para examinar, nos versos 31 e 32 ela chama atenção para discernir por meio de uma avaliação. Então, o exame diz o que eu estou fazendo e como estou vivendo. Já o julgamento diz se o que estou fazendo ou vivendo é bom ou mau diante do padrão de Deus. Paulo exorta os cristãos de Corinto a fazer uma avaliação de suas vidas quanto à atitude com a qual participam da Ceia do Senhor. Esse julgamento produz disciplina de Deus e livra do seu juízo; veja o verso 30.
d) Voltar a ter consideração uns pelos outros. A Ceia era motivo de escândalo, vergonha e tristeza porque cada um estava interessado em satisfazer suas próprias necessidades, sem se importar com os demais. Paulo então, recomenda que eles esperem uns pelos outros e que, se alguém tiver fome, coma em casa para não mudar o sentido da Ceia do Senhor em banquetes de pagãos, dando lugar a que o juízo de Deus seja exercido sobre eles (33,34).
Certamente nos não gostamos da palavra disciplina, porque não queremos passar pelo exame e pelo julgamento; mas, a disciplina produz aproveitamento, para que o crente não se estrague de vez, e produz temor do Senhor no meio da igreja (Hb. 12:4-13). Amados irmãos, Deus nos chamou e nos santificou em Cristo, a fim de sermos para o louvor da sua glória. Mas, se nos descuidarmos, à semelhança dos cristãos de Corinto, também daremos mais atenção ao banquete que satisfaz e alimenta o corpo, do que aquele que alimenta e satisfaz a alma. Na igreja de Corinto os santos não estavam conseguindo discernir o sagrado e, assim, por suas atitudes e ações o estavam profanando. E, como será entre nós?

Pr. Vanderli Brito
Publicado no Boletim 563 de 04/Nov/2007