Neste Domingo, a Igreja se reúne, mais uma vez, para celebrar a Ceia do Senhor. Será isso apenas a repetição de um ritual cujo significado já não está tão claro para nós?
Na história do Antigo Testamento encontramos Deus dando ao seu povo, Israel, períodos de festas ou celebrações, todas com significados ricos. Por meio delas, o povo anunciava não só os grandes feitos de Deus, mas também, o relacionamento existente entre eles. Israel não precisava realizar nem participar das festas pagãs das nações ao seu redor porque todas elas estavam comprometidas com a adoração aos seus deuses. É bem verdade que ao longo da história, Israel transformou aquelas festas em rituais mecânicos e sem qualquer sentido espiritual. Isto era demonstração de esquecimento e deturpação das ordenanças de Deus. Não precisamos voltar muito tempo na história para constatarmos que a Igreja de Jesus sofre por esquecer e desprezar o que dele recebemos como ordenanças. O apóstolo Paulo falando da Ceia diz: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído..”. (1Co. 11:23). Assim, a Ceia do Senhor é uma celebração dada como ordenança, primeiramente aos apóstolos, e também à igreja. O capítulo 26 de Mateus descreve o início da trajetória de Jesus rumo ao Calvário. O evangelista Mateus reserva os versos 20 a 30 para relatar um dos últimos momentos de Jesus com os 12 discípulos. Esse momento tem sido designado como a Última Ceia ou a Ceia do Senhor. Sua realização foi durante a comemoração da festa da Páscoa. Não devemos pensar que Jesus reuniu seus discípulos para repetir um ritual da tradição judaica. Jesus queria celebrar uma ordenança de Deus feita em Êxodo 12. E fez dando a verdadeira interpretação do texto e da festa. Durante o primeiro dia da festa, no momento mais importante, quando se comia o cordeiro pascal com pães asmos e ervas amargas, o Senhor Jesus faz duas declarações: A primeira é que dentre eles um haveria de traí-lo E, enquanto comiam, declarou Jesus: “Em verdade vos digo que um dentre vós me trairá”. (26:21). A segunda é a declaração de que o seu corpo será entregue e o seu sangue será derramado pelos discípulos, mas um dia eles voltarão a cear junto novamente - Enquanto comiam, tomou Jesus um pão, e, abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, dizendo: “Tomai, comei; isto é o meu corpo”. A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados. “E digo-vos que, desta hora em diante, não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o hei de beber, novo, convosco no reino de meu Pai”. (26:26-29).
É necessário observarmos alguns detalhes da segunda declaração de Jesus:
a) Isto é o meu corpo - grande número de comentadores, com razão, afirma que Jesus apresenta, no pão, o símbolo do seu corpo que, ele mesmo, estava entregando como oferta pelo pecado. Aquela era uma entrega sem volta e com o mais sincero espírito de devoção e obediência. Não posso esquecer o preço que foi pago pelo meu pecado.
b) Isto é o meu sangue - Jesus faz esta declaração apontando três aspectos: O seu sangue é o sangue da nova aliança que passa a vigorar a partir do seu sofrimento e da sua morte, e tem o poder de anular o pacto antigo, feito com Adão. O seu sangue é derramado em favor de muitos, o que combina com o significado do seu nome: “Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles”. (Mt. 1:21); estas palavras fazem eco com a profecia de Isaias: “O meu servo, o justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos”. (Is. 53:11). O seu sangue fará remissão pelos pecados; este fato nos remete para o que Jeremias vislumbrou: “perdoarei as suas iniqüidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei”. (Jr. 31:34). Neste pequeno texto encontramos as seguintes doutrinas:
1 - A soberania de Deus. A Ceia demonstra que todos os acontecimentos na vida de Jesus foram decididos, decretados e realizados pela soberana e eterna vontade de Deus. O Filho do Homem vai como está escrito a seu respeito (26:24);
2 - A queda e seus efeitos. A Ceia aponta para o pecado de Adão e Eva como o primeiro que matou a raça humana e, também, para o meu pecado;
3 - A expiação. A Ceia declara que Ele morreu em meu lugar. Jesus mesmo fala que o seu sangue seria derramado em favor de muitos (26:28);
4 - A graça de Deus. A Ceia aponta para o favor de Deus, pois do mesmo modo que o pão e o vinho foram dados aos discípulos, assim, também, o corpo e o sangue de Jesus foram graciosamente doados em nosso favor;
5 - O perdão. A Ceia indica remissão de pecados porque a morte de Cristo satisfez a justiça de Deus;
6 - A vida eterna. A Ceia revela o resultado da obra de Cristo ...até aquele dia em que o hei de beber, novo, convosco no reino de meu Pai (26:29);
7 - A fidelidade de Deus. A Ceia confirma o cumprimento da promessa de Deus, o que nos dá confiança para aguardarmos a volta de Cristo;
8 - A salvação e o Salvador. A Ceia afirma que Deus preparou a salvação e enviou o Salvador Jesus Cristo para efetuá-la.
Queridos irmãos, nossa reflexão deve ter um desafio prático: Como celebrar a Ceia do Senhor hoje? O apóstolo Paulo nos dá uma ajuda: Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa, como sois, de fato, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Por isso, celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade e da malícia, e sim com os asmos da sinceridade e da verdade. (1Co. 5:7,8).
Pr. Vanderli Brito Publicado no Boletim 598 de 06/Jul/2008