Uma das características mais marcantes do nosso tempo é a facilidade de influenciar e manipular pessoas, fazendo-as pensar e agir de acordo com o interesse daqueles que detém o poder. Isso acontece justamente quando a humanidade considera ter alcançado o auge da cultura e da civilização. É fato que as pessoas têm à sua disposição inúmeras possibilidades de aprendizagem e informação, como nunca antes. Então, quando se esperava encontrar, nesta geração, estabilidade, firmeza, profundidade, determinação e resistência; eis que ela se apresenta confusa, frágil, superficial e facilmente levada pelo fascínio do engano. Convido você a pensar se este fenômeno não está presente também, no tipo de vida cristã do nosso tempo. Lucas, o escritor de Atos, registra a trajetória e os acontecimentos que envolveram a segunda viagem missionária de Paulo. O texto descreve a passagem do apóstolo por Beréia, uma cidade da Macedônia e distante de Tessalônica 80 quilômetros e desperta nossa atenção para dois grupos de pessoas:
1. Paulo e seus companheiros de viagem “E logo, durante a noite, os irmãos enviaram Paulo e Silas para Beréia; ali chegados, dirigiram-se à sinagoga dos judeus.” (Atos 17:10). Embora o verso não mencione Timóteo, certamente ele estava junto, pois é mencionado no verso 15. Pensar na vida desses três missionários é algo que nos encoraja e desafia, enquanto nos faz rever a qualidade de nossa vida cristã. A partir do texto acima podemos considerar alguns aspectos que devem incomodar nosso coração:
a) O chamado de Deus implica viver perigosamente Nesse aspecto, a segunda viagem missionária estava repleta de situações que punham em risco a segurança daqueles servos de Deus. Em Filipos eles foram açoitados e presos e em Tessalônica escaparam da fúria dos judeus. Esses fatos não os intimidaram, eles viajaram 80 quilômetros e entraram na cidade de Beréia para continuar fazendo aquilo que fora o motivo de serem quase mortos: proclamar o Evangelho. Em suas mentes deveriam estar gravadas as palavras de Jesus: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia sua cruz e siga-me”. (Mc 8:34) É claro que esse chamado de Jesus contraria o que é feito hoje, em nome do Evangelho, e que promete o céu na terra. Todavia a mente dos cristãos modernos está fechada em seus próprios interesses e, assim, facilmente são levados pelo “vento de doutrina” que fascina os olhos.
b) O chamado de Deus implica viver com uma missão Paulo e seus companheiros demonstram estar determinados a realizar aquilo que, para eles, era a razão de suas próprias vidas. É impressionante observar, no texto, que eles chegam a Beréia e vão para a sinagoga procurar os judeus a fim de lhes falarem do cumprimento das promessas de Deus em Jesus Cristo. Isso era procurar encrenca. O Senhor Jesus tornou claro, de muitas maneiras, que os seus discípulos viveriam integralmente comprometidos com a missão de anunciar o Evangelho do reino de Deus: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça...” (João 15:16). É importante compreender que nós não temos uma missão pessoal, particular; a missão é de Deus e, por uma escolha dele, fomos comprometidos com ela.
2. Os judeus de Beréia “Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim” (Atos 17:11). O segundo grupo é formado pelos judeus que vivem em Beréia, sobre os quais Lucas declara serem mais nobres. A palavra nobre, usada pelo escritor, significa “ter a mente aberta”. Isto é, não foram preconceituosos com respeito aos missionários, nem com a pregação dos mesmos, mas demonstraram boa educação ou bom nascimento. Neles se verificam as seguintes atitudes:
a) “... pois receberam a palavra com toda avidez” Lucas fica admirado com a maneira que os judeus de Beréia ouviram a palavra com entusiasmo, com prontidão, dando a devida atenção. Esse fato não era comum e continua não sendo comum. Por vezes enquanto se prega a palavra de Deus alguns conversam, outros atendem ligações telefônicas, outros brincam com seus aparelhos celulares e outros aproveitam para dormir. Hoje se exige entusiasmo dos pregadores, nunca dos ouvintes.
b)”... examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim” A idéia é de investigação cuidadosa para conferir e chegar a uma conclusão acertada. Era necessário ter a mente aberta, para conciliar receptividade e exame cuidadoso, o que demonstrava interesse pela verdade. O mais impressionante é que isso era feito “todos os dias”. Enquanto Paulo e seus companheiros estiveram pregando eles conferiam nas Escrituras para constatar se, de fato, era assim.
O que aconteceu depois de tudo isso foi algo maravilhoso; Lucas diz que “Com isso, muitos deles creram, mulheres gregas de alta posição e não poucos homens” Não se podia esperar outra coisa, pois quando homens cuja mente foi aberta por Deus para compreenderem o seu chamado e a sua missão, pregam para pessoas a quem Deus igualmente abriu a mente para receberem a palavra com entusiasmo e a examinarem todos os dias só pode ter um final: crer em Jesus como o Filho de Deus Salvador.
Para alguns, ter a mente aberta pode parecer estar disposto a receber qualquer coisa ou crer em qualquer coisa. Essa atitude é própria desta geração chamada Pós-moderna, que não tem firmeza em absolutamente nada porque se alimenta da superficialidade e do engano. Gente com a mente aberta por Deus se alimenta da verdade e tem prazer na profundidade da sua palavra, por isso medita nela noite e dia.
Pr. Vanderli Brito Publicado no Boletim 608 de 14/Set/2008