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BOLETIM 635


NÃO JULGUEIS, NEM CONDENEIS

Jesus começa essa seção, dizendo: Não critiquem os outros... Como em Mt 6.1,19,20; 7.7, etc., Um princípio é primeiro declarado, e em seguida é explicado. O que precisamente o Senhor quis dizer ao afirmar: “Não julgueis” (em quase todas as versões em português)? Quis ele dizer que toda forma de julgamento é totalmente, e sem qualquer qualificação, proibida, de tal modo que não se nos permite formar opinião, nem expressá-la, com referência ao nosso próximo, nem com referência a ele, jamais devemos emitir opinião diferente ou desfavorável? À luz do que Jesus mesmo diz nesse mesmo parágrafo (v.6), do qual se deduz que devemos considerar certos indivíduos como sendo cães e porcos, e à luz de Jo 7.24; cf. 1Co 5:12; 6.1-5; Gl 1.8,9; Fp 3.2; 1Ts 2.14,15; 1Tm 1.6,7; Tt 3.2,10; 1Jo 4.1; 2Jo 10; 3Jo 9, e outras tantas passagens que poderiam acrescentar-se, é evidente que não se trata de uma condenação tão completa contra a formação de uma opinião a respeito de uma pessoa, e de expressá-la abertamente.
Jesus mesmo chegara a certas conclusões referentes aos escribas e fariseus e não hesitou em expressá-las (Mt 5.20); 6.2,5,16; 15.1ss.; 23.1ss). Embora seja verdade que não podemos ler o que está no coração de nosso próximo como Jesus era capaz de fazer (Jo 2.24,25), de modo que o nosso juízo deve ser mais reservado e jamais deve ser definitivo, não há nada no ensino, quer do próprio Cristo, quer dos apóstolos depois dele, que nos alivie da obrigação de formar opinião sobre as pessoas e de agir com base em tais opiniões. Assim também fica subentendido que às vezes será nosso dever expressar nossos juízos. Mt 7.1 às vezes tem sido usado como desculpa para o descuido no exercício da disciplina eclesiástica; porém, à luz de seu contexto, bem como de 18.15-18 e Jo 20.23, o uso dessa passagem não encontra qualquer jsutificativa.
Então, o que Jesus quis ensinar?
Ele quis ensinar (vv.3-5) que é errado alguém concentrar sua atenção na pequena mancha que há no olho de seu irmão e, enquanto assim faz, não levar em conta a trave que há em seu próprio olho. Aqui o Senhor condena o espírito de censura, o juízo áspero, a autojustificativa em detrimento de outros, e isso sem misericórdia, sem amor, como o indico também a passagem paralela (Lc 6.36,37).
Essa inclinação para descobrir e condenar severamente as faltas, reais ou imaginárias, dos outros, enquanto se faz vista grossa em relação às prórpias faltas, que amiúde são violações ainda mais graves da lei de Deus, era comum entre os judeus (Rm 2.1,2), especialmente entre os fariseus (Lc 18.9; Jo 7.49), e é comum sempre e em todo lugar. De acordo com as palavras de Jesus aqui em 7.1, para que você mesmos não sejam criticados, a pessoa que se justifica aos seus próprios olhos, que tem por costume descobrir faltas nos outros, deve lembrar que ela mesma pode esperar ser também condenada, e isso não só por parte dos homens, mas também, e especialmente, por parte de Deus, como temos Gl 6.14,15, segundo já foi mencionado Cf 18.23-25.
Com o objetivo de enfatizar o pensamento expresso em 7.1b, o mesmo é repetido numa fraseologia um pouco diferente: 2. Porque, de acordo com o juízo com que criticarem (os outros), vocês mesmos serão julgados; e de acordo com a medida com que vocês medirem (os outros), vocês serão medidos, querendo dizer: o padrão (ou critério) de julgamento que vocês aplicarem aos outros, será aplicado a vocês. Se o seu julgamento for sem misericórdia, então vocês serão julgados sem misericórdia. Igualmente, se o seu julgamento for com bondade, vocês serão julgados e tratados com bondade. Então será derramada em seu regaço “boa medida, recalcada, sacudida e transbordante”. Assim vocês serão julgados e recompensados por Deus, com certeza (6.14,15; cf. Rm 2.16; 3.6), porém os agentes humanos não são excluídos (Lc 6.34,38).
Segue-se uma descrição figurativa dos críticos mordazes e uma advertência dirigida a eles nos vv.3-5. E por que você nota a pequena mancha no olho do seu irmão, e nem (mesmo) enxerga a viga que está no seu próprio olho? Ou como pode dizer ao seu irmão: Deixe-me tirar a pequena mancha do seu olho, enquanto você tem uma viga no teu próprio olho? Hipócrita! Antes de tudo, tire a viga do seu próprio olho e em seguinda você verá suficientemente claro para tirar a pequena mancha do olho do seu irmão. A viga é uma pesada peça de madeira usada em construção como suporte horizontal para travar o madeiramento. (A “pequena mancha” ou “argueiro” é uma pequenina farta de palha ou madeira, e talvez uma minúscula lasca de uma viga).
Como você está se sentindo ao estudar o Sermão do Monte.

Comentário do Novo Testamento - Mateus Vol. 1
William Hendriksen
Publicado no Boletim 635 de 22/Mar/2009