A tentativa de confundir a Igreja de Jesus com grupos políticos, religiosos, filosóficos e financeiros não é novidade. Isso tem acontecido, com muita freqüência, ao longo da história. Nos últimos anos, porém, ela tem sido apresentada como um supermercado onde há uma variedade enorme de produtos e ofertas a preços promocionais. O cliente escolhe e diz como quer pagar. Esse é o evangelho dos consumidores que anuncia os direitos e as facilidades, escondendo, entretanto, os deveres, as responsabilidades e os compromissos. Mas, a despeito de tudo isso, a Igreja de Jesus está presente no mundo e os que fazem parte dela comprometeram suas vidas com o Senhor e com seu evangelho.
Em Atos 2 Lucas narra um dos capítulos mais importantes da história da Igreja. Era o Dia de Pentecostes, uma multidão vinda de vários lugares enchia Jerusalém para a celebração da festa. Pedro e os demais discípulos cheios do Espírito Santo vão às ruas e falam das grandezas de Deus. Quando muitos estavam perplexos, Pedro tomou a palavra e expôs as Escrituras a respeito da pessoa de Cristo e de sua história. John Stott define seis fases nessa exposição:
1) Ele era homem, mas sua divindade era reconhecida por seus milagres;
2) Ele foi morto por mãos iníquas, mas segundo o propósito de Deus;
3) Ele ressurgiu dos mortos conforme previram os profetas e testemunharam os apóstolos;
4) Ele foi elevado à destra de Deus e, de lá, derramou o seu Espírito;
5) Ele dá o perdão e o Espírito a todos que se arrependem, crêem e são batizados;
6) Ele os acrescenta à sua nova comunidade.
Uma multidão de quase três mil pessoas foi chamada por Deus e para Deus, através dessa exposição poderosa das Escrituras. A partir do verso 41 Lucas passa a demonstrar os efeitos experimentados pelos três mil que aceitaram a palavra.
1. Aceitar a palavra compromete a viver em comunidade - “Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados” (2:41). O batismo além de ser uma declaração de fé, também aponta para um estilo de vida de compromisso comunitário. Na Igreja de Jesus não há lugar para uma espiritualidade individualista que leva alguém ao templo à procura de uma divindade que lhe ouça todos os pedidos e em seguida volta pra casa e espera pelas respostas. Essa é uma espiritualidade mecânica, autônoma, interesseira e egoísta. Pelo batismo aquelas três mil pessoas se comprometeram com gente em comunidade. Viver em comunidade é viver perto, tão perto que é possível ouvir o coração, conhecer as necessidades, sentir as dores, alegrias e tristezas.
2. Aceitar a palavra compromete a estudar - “E perseveravam na doutrina dos apóstolos” (2:42). Os novos convertidos não ficaram se deliciando com experiências místicas, pelo contrário, eles se assentaram aos pés dos apóstolos para receber deles as instruções a respeito da nova vida. Por sua vez, os apóstolos cumpriram com eficiência a ordem de Mateus 28:18-20 ensinando, com didática tudo o que Jesus tinha ordenado o que era autenticado pelo Espírito Santo: “muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos” (2:43). O que podemos dizer daqueles que rejeitam o estudo das Escrituras é que eles não nasceram de novo, já que os nascidos têm fome e sede da palavra de Deus.
3. Aceitar a palavra compromete a amar - “Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade” (2:44,45). A idéia presente nesta passagem é a da generosidade que deve ser vivenciada com espontaneidade. Isso é uma marca da comunidade de Cristo que cheia do Espírito Santo não vê apenas suas próprias necessidades, mas se compadece das necessidades dos outros. Ninguém era obrigado a vender nada, os que agiam assim eram movidos por generosidade, que só é encontrada onde há amor fraternal.
4. Aceitar a palavra compromete com uma vida de adoração - “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo” (2:46,47). Essa vida de adoração envolvia tempo, não mais uma vez por semana, mas diariamente; envolvia lugar, não apenas no templo, mas nas casas; envolvia o serviço, não mais os sacrifícios, mas a ceia, orações e louvor; envolvia sentimentos, não de tristeza, mas de alegria e singeleza de coração.
5. Aceitar a palavra compromete com a evangelização. “Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos” (2:47). É natural que a comunidade de Cristo não estava voltada apenas para si mesma. Como Jesus, os convertidos também se voltaram para o mundo a fim de buscar e salvar o perdido. É claro que é o Senhor quem acrescenta e salva os que ele mesmo quer, mas a Igreja é instrumento para a proclamação do evangelho.
Se sua vida cristã se resume em ir ao “supermercado da bênção” e se deliciar com as ofertas tentadoras desse universo “evangélico”, pense que aqueles que pertencem à Igreja de Cristo não vivem uma fé irresponsável, mas vivem comprometidos com a glória de Deus. Pense viver em comunidade no templo, nas casas, na escola bíblica, nos ministérios. Pense nas implicações de ter aceitado a palavra que lhe foi pregada.
Pr. Vanderli Brito Publicado no Boletim 671 de 29/Nov/2009